INTERVENÇÃO do Deputado João Serrano na A.R. sobre o Museu dos Coches
Projecto de resolução 469/X-4.ª – propõe a imediata suspensão da construção do novo Museu dos Coches e a abertura de um processo de discussão pública.
04-06-2009
Senhor Presidente
Senhoras e Senhores Deputados
A questão que nos é colocada neste debate é se existe ou não uma estratégia de requalificação, modernização ou melhoria dos serviços e museus sob a tutela do Ministério da Cultura.
Para respondermos, três questões nos são colocadas:
Primeira questão: faz sentido a desocupação dos serviços do IGESPAR que se encontram nas antigas oficinas gerais do exército e a sua transferência para o Palácio da Ajuda e para a Cordoaria Nacional?
A resposta é clara. Faz todo o sentido transferir estes serviços para a Cordoaria Nacional, porque se encontram num espaço degradado das antigas oficinas gerais do exército, que põem em causa a preservação do espólio arquitectónico e patrimonial existente e porque no torreão ocidental da Cordoaria Nacional terão as desejáveis condições de trabalho e de salvaguarda do património existente.
Como faz todo o sentido, ter-se retirado o arquivo histórico de arqueologia que estava, de igual modo, em situação de total precariedade e transferi-lo para o Palácio da Ajuda.
Esta transferência, efectuou-se em apenas três meses, respeitando todas as técnicas arquivísticas modernas, tendo sido acompanhada por técnicos especializados da torre do tombo e que permitirá a concentração, reorganização e digitalização de um arquivo disperso.
Gostaria, no entanto, de assinalar o trabalho desenvolvido pelos investigadores do centro de investigação e “paleo ecologia humana” e “arqueo ciências”. Investigadores com formação específica e alta qualificação que, para além de realizarem o seu trabalho em péssimas condições físicas, aguardam ainda uma clarificação da sua situação laboral. Esta situação, põe em causa um trabalho científico e de investigação, de mais de uma década na área da zoologia, em especial do estudo ósseo dos animais ibéricos, e que se traduz na criação de uma “osteoteca” sobre animais ibéricos que é uma referência ao nível europeu.
Segunda questão: faz sentido a transferência do Museu Nacional de Arqueologia para o espaço da Cordoaria Nacional?
A resposta também aqui é positiva.
Trata-se de uma solução com mais de cinquenta anos, que vem dar resposta a um espaço de exposição já exíguo com cerca de 2000m2, afastada a hipótese de ampliação do actual espaço face ao parecer negativo do conselho consultivo do ex IPAAR, com fundamento na perda do estatuto de património mundial de que goza o Mosteiro dos Jerónimos.
Esta transferência respeitará os mais rigorosos critérios técnicos/urbanísticos de salvaguarda de um espólio de incalculável valor patrimonial e permitirá triplicar o espaço de exposição que passará a ser de cerca de 8000m2.
Finalmente, a terceira questão: faz sentido a construção do novo museu dos coches no espaço das antigas oficinas do exército?
Faz todo o sentido, numa perspectiva de valorização turística e cultural de Lisboa e de Portugal.
Faz todo o sentido, porque permitirá erguer um projecto de arquitectura, feito pelo prestigiado arquitecto Paulo Mendes da Rocha – um dos três arquitectos do espaço lusófono, que ganharam o mais importante prémio da arquitectura mundial – o premio Pritzker.
Faz todo o sentido, porque permitirá a regeneração urbana da zona de Belém, até agora murada, abrindo amplos espaços públicos no eixo oeste-este (Belém – CCB- Cordoaria) e o eixo norte/sul (Calçada da Ajuda, Rua da Junqueira), criando uma praça pública de mais de 8000m2 e espaços para exposições itinerantes.
Faz todo o sentido;
Porque se perspectiva aumentar o número de visitantes do Museu para cerca de 1 milhão de visitantes ano, que representa um significativo aumento, face ao número actual que é de 250 mil visitantes ano, que coloca o museu dos coches como o mais visitado do País, tanto por portugueses como por estrangeiros;
Porque permitirá aumentar significativamente o espaço disponível para exposição (passando dos actuais 1700m2 para 4320m2), criando um novo espaço museológico, moderno, adoptando as mais recentes técnicas museológicas como o multimédia.
Faz todo o sentido, porque permitirá juntar num só espaço mais de 70 coches, que se encontram dispersos, muitos deles nunca vistos por muitos portugueses, e porque vai valorizar a mais completa e importante colecção de viaturas de gala dos séculos XVII, XVIII e XIX existentes no mundo.
Estamos pois perante uma requalificação urbanística e arquitectónica da cidade de Lisboa e uma profunda valorização do nosso património cultural, numa perspectiva turística e cultural que muito beneficiará o nosso País.